Publicidade acessível: uma ponte para novos consumidores

14/11/2018

O mercado audiovisual perde oportunidades ao não se comunicar com a pessoa com deficiência

A acessibilidade é um tema cada vez mais pungente no mercado audiovisual, e não é para menos. Melhor dizendo, já era hora. Somente no Brasil, mais de 45 milhões de pessoas declaram ter alguma deficiência – o equivalente a 24% da população – sendo 18,6% com deficiência visual e 5,10% com deficiência auditiva (Censo 2010 IBGE).

Uma grande parcela do mercado consumidor que, sem acessibilidade, não consegue entender a mensagem dos produtos culturais que colocamos em circulação: filmes, séries, programas de TV, Video on Streaming, web séries, sem mencionar publicidade. É sobre ela que vamos falar neste blog post.

Entender, neste caso, é etapa preliminar de conectar-se. E permitir que a pessoa com deficiência visual ou auditiva se conecte com essas mensagens é a chave para o desejo de consumir produtos, serviços, cultura.

Abrir as portas das salas de exibição para cegos e surdos abre um universo de possibilidades de produtos e serviços que podem ser comercializados. Baldes de pipoca com texturas e relevos, cardápios em braile, trailers com inserção de audiodescrição, para citar os mais óbvios. Sem mencionar que, para que esses novos produtos tenham sucesso entre os consumidores, se faz necessária a consultoria dos mesmos, e aí abrimos também as portas do mercado de trabalho para profissionais de audiodescrição, consultores, intérpretes de LIBRAS, etc.

A oportunidade se estende aos shoppings que, aliando publicidade ao treinamento de seus colaboradores para atenderem as necessidades desse público, terão a chance de fidelizar clientes, com desejo e poder de compra, até então esquecidos. A questão é quem vai alcançar este nicho primeiro.

A tendência é que cheguemos a esse lugar em poucos meses com a ajuda de políticas públicas impulsionando o progresso da acessibilidade na comunicação, uma causa com a qual o recém-eleito Presidente Jair Bolsonaro já declarou compromisso, e que provavelmente, se tornará uma bandeira de sua gestão. Uma das promessas é a regulamentação do uso de legendas em toda programação de TV gravada e nos filmes brasileiros.

Acessibilidade Digital: cases de sucesso

No ambiente digital, as estratégias de marketing e publicidade visando o público com deficiência estão um passo à frente. O uso da hashtag #PraCegoVer, uma iniciativa da professora baiana Patrícia Silva de Jesus, também conhecida como Patrícia Braille, para possibilitar a leitura de imagens por deficientes visuais, se tornou o símbolo mais expressivo do uso da acessibilidade pelas marcas nas redes sociais.

A adoção de sites e e-commerces acessíveis segue a mesma lógica, embora haja legislação específica para isso (ainda pouco cumprida). Avon, O Boticário, Magazine Luíza, Banco Bradesco, são exemplos de gigantes que saíram primeiro nessa corrida. Uma rápida leitura na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2014, que aponta que 57% dos cidadãos com deficiência usam com frequência a internet – graças a softwares de audiodescrição e à janela de LIBRAS – permite entender porquê.

A Avon é um case de sucesso que merece destaque. Em 2016, a empresa iniciou um reposicionamento de marca no Brasil, dando visibilidade a diferentes corpos e vozes femininas, incluindo as mulheres com deficiência.

Além de adotar linguagem acessível nas redes sociais, possibilitando o diálogo direto com essas consumidoras, a marca abraçou um posicionamento pró-diversidade em todas as publicidades.

No vídeo de lançamento da campanha #DonaDessaBeleza, em novembro de 2016 – leia-se mês de Black Friday e Natal chegando -, são usadas LIBRAS e Audiodescrição, além de uma modelo surda entre as personagens. Desnecessário mencionar o engajamento impressionante do público deficiente e não deficiente: 1,7 milhões de visualizações, mais de 6 mil compartilhamentos e, com certeza, muitas consumidoras satisfeitas.